terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Mimesis pela luz: a fotografia




Todo mundo ruminou, em algum momento, o velho lugar-comum sobre a foto, atingindo uma exatidão mimética tão perfeita que destrona a pintura e, ao mesmo tempo libera para ela a via rumo à abstração.[1]

                     Jacques Aumount


A primeira fotografia foi realizada pelo francês Joseph-Nicphore Niepce[2] em 1827.
A imagem fixou-se em um papel após oito horas de exposição ao sol. Este processo ficou conhecido pelo nome de Heliografia[3]. O objetivo agora era reduzir o tempo de exposição. Niepce se associou ao pintor, cenógrafo e gravurista Jaques Mandé Daguerre em busca de uma solução. Com o falecimento de Niepce, o químico Dumas se tornou parceiro de Daguerre e, em 1839, apresentaram os progressos da pesquisa. Novamente a ciência e a arte se encontram no desenvolvimento de uma técnica, dessa vez com o objetivo de desenvolver a fotografia para grafar a luz.

Após vários anos de experiências, em agosto de 1839, Daguerre apresentou um novo processo à L'Acadêmie des Sciènces et Beaux Arts de Paris. O processo provou-se revolucionário, fez imediato sucesso e ficou conhecido como Daguerreotipia.[4] Por solicitação do próprio Daguerre, a técnica foi divulgada livremente ao mundo sem quaisquer direitos autorais.[5]

Na mesma época o inglês William Henry Fox Talbot[6] desenvolveu um processo fotográfico muito mais barato e prático. Diferente da daguerreotipia, o processo de Talbot utilizava um negativo de papel que permitia a fotografia em série. A única desvantagem é que a imagem das cópias de Talbot não possuía a mesma qualidade dos daguerreótipos.

Mesmo assim, o progresso feito por Talbot foi popular. Em 1841 a Talbotipia já conseguia concorrer em popularidade com a Daguerreotipia. Deve-se dizer que houve processos e acusações de plágio entre ambos os rivais, mas Talbot perdeu quase todas e não viu jamais os lucros do seu trabalho. Anos mais tarde, o francês Gustave Le-Gray refinou a técnica imergindo os negativos de papel num banho de cera para torná-los mais transparentes.[7]

A prática fotográfica foi simplificada a partir de 1871. O inglês Richard Leach Maddox utilizou emulsão de gelatina para fixação da imagem. O processo foi aperfeiçoado e ficou conhecido como chapa seca.

A invenção da chapa seca foi de tremenda importância para a fotografia. Os fotógrafos poderiam ficar muito mais à vontade para se concentrar no assunto, deixando todos os preparativos complicados de lado. Evidentemente a chapa seca beneficiou muito mais a fotografia externa. A época da chapa seca é caracterizada principalmente pelos negativos de vidro, que também eram usados nos processos úmidos. Entre 1871 e 1885 muita pesquisa foi feita para encontrar novos suportes para a emulsão seca, entre os quais o nitrato de celulose foi um dos preferidos.[8]


A técnica fotográfica obteve um avanço surpreendente entre os anos 1850 e 1880. Surge, nesse período, a cronofotografia, uma série de fotografias produzidas em um curto período entre elas, possibilitando a pesquisa do movimento. O primeiro a alcançar resultados positivos nessa área foi Edward Muybridge (1830-1904). No ano de 1873, Edward iniciou suas experiências procurando registrar a corrida de um cavalo. Para cumprir seu objetivo, utilizou 24 câmeras fotográficas dispostas em sequência para saber se o animal levantava as quatro patas do chão durante  o galope.

Em São Franciso, o sr. Muybridge causou grande sensação com suas fotografias instantâneas de animais em movimento. A ciência do zootrópio recebe assim uma bela ilustração com o auxílio da arte fotográfica; pois em suas fotografias é possível obter cada fase, por ligeira que seja, do movimento de um cavalo, ou do vôo de um pássaro, por exemplo. Temos aqui, talvez, uma nova aplicação da fotografia à ciência fisiológica.[9]


A publicação das imagens de Muybridge conquistou importância nas pesquisas sobre a animação fotográfica. Seus estudos auxiliaram áreas como a veterinária e a medicina. Estimulado pelas ações de Muybridge, o fisiólogo e inventor francês Dr. Jules Eienne Marey utilizou a cronofotografia como um método investigativo da realidade no final do século XIX.

Isto aponta para uma questão: as cronofotografias são um novo suporte para um método de investigação que já estava presente desde os primeiros trabalhos desse cientista. Reforça-se a idéia de que o uso da fotografia (ou dos sistemas audiovisuais) para a revelação de fenômenos e para a produção de conhecimento sobre a realidade deve ser precedido por um método e principalmente por uma postura epistemológica que se coloque à frente dos aparelhos e procedimentos utilizados.[10]


 Após reproduzir a imagem, o homem procurava fotografar o próprio tempo. Se é verdadeiro que a ciência movimentou a imagem, pode-se afirmar que a imagem em movimento impulsionou as pesquisas científicas, tornando-se uma técnica essencial para a elaboração do discurso científico e do discurso artístico.
O conceito mimético, que desde Aristóteles dominou o campo da arte, foi abalado devido à reprodução instantânea da imagem. Instalava-se um paradoxo na arte. Se, por um lado, os artistas exploravam a nova tecnologia, desviando a imagem de seu sentido objetivo,[11] os cientistas estavam preocupados utilizando-a em pesquisas científicas.

Todavia, o que se pretende demonstrar aqui é que, no caso de Marey, além de apenas mais um aparato técnico-fotográfico em desenvolvimento, tratava-se de uma abordagem investigativa mais ampla, que também poderá ser encontrada até hoje, em atividades documentárias, científicas ou não-científicas, que se desenvolveram posteriormente.[12]

Não podendo o homem influenciar diretamente na elaboração da imagem, a fotografia passou a ter o valor de representação do real. Roland Barthes, em A câmara clara: nota sobre Fotografia, escreve sobre o dilema de ela transitar “entre duas linguagens - uma expressiva, outra crítica."[13] Com a democratização do processo fotográfico, em pouco tempo a fotografia é usada artistítica e cientificamente. Mesmo que sua história tenha começado com uma ilusão,[14] no início a nitidez das imagens causava espanto às pessoas.

Um aparelho que podia rapidamente gerar uma imagem do mundo visível, com um aspecto tão vivo e tão verídico como a própria natureza. (...) As pessoas não ousavam a princípio olhar por muito tempo as imagens por ele produzidas. A nitidez das fisionomias assustava, e tinha-se a impressão de que os pequenos rostos humanos que apareciam na imagem eram capazes de ver-nos, tão surpreendente era para todos a nitidez insólita dos primeiros daguerreótipos.[15]   

De acordo com Diana de Abreu Dobranszky, no seu ensaio A fotografia entre a arte e a máquina, na Antiguidade, a arte e a ciência se encontravam  na mesma categoria, techné, que englobava toda atividade que, por seguir regras, poderia ser ensinada. 

Quando a fotografia surge na primeira metade do século XIX, ciência (campo da técnica e do rigor metodológico e matemático) e arte (campo de criação e da expressão) transitam em dimensões e bases teóricas completamente distintas. A arte que abandonou a rigidez da doutrina de imitação da natureza para exercitar-se na fluidez da expressão e dos sentimentos precisou lidar com uma nova forma de produção que parecia reportar-se à doutrina abandonada no século XVIII. Da mesma forma teve que lidar com uma mecanicidade que parecia ter maior relação com a ciência do que com a arte, mas cujos operadores queriam que suas imagens fossem reconhecidas como criação artística. [16]

Assim, a partir da invenção da fotografia, é possível ao discurso fotográfico servir ao campo de expressão (arte) e ao campo da verdade (ciência). Assemelha-se, portanto, ao funcionamento da língua, que pode ser subjetiva (poética) ou objetiva (prosa).
A humanidade inicia a sua escrita visual em movimento quando o homem domina a  técnica da projeção, conseguindo imprimir o instantâneo da imagem pela ótica da câmera. O texto, o pensamento e a informação, que durante os séculos foram baseados em um sistema de escrita, tecidas no texto ou transmitidas pela oralidade, encontram na imagem outra forma possível de escrita e propagação. A imagem na tela se desenvolveu como a palavra, entre o sentido objetivo e subjetivo, entre a ciência e a arte, conferindo à linguagem audiovisual a  importância como escritura de imagens.
Se, na literatura, o leitor forma imagens, sons, movimentos a partir de narrativas que possuem como apoio de partida o texto, no audiovisual o apoio de partida dá-se com as imagens e os sons em movimento, que então encontra no espectador sua narrativa final. O processo é o mesmo; o que é modificado é o seu sentido de origem.  A escrita parte do texto para obter imagens, sons e movimento. No audiovisual o movimento, as imagens e o som nos fornecem o “texto escrito”. Fecha-se um importante ciclo quando as imagens em movimento podem sustentar um discurso, uma narrativa própria.  A mimesis do movimento estava criada.


[1]AUMONT Jacques. O Olho Interminável [cinema e pintura]. São Paulo: Cosac & Naif, 2004, p. 37.
[2] Joseph Nicéphore Niépce foi um inventor francês responsável por uma das primeiras fotografias. Niépce começou seus experimentos fotográficos em 1793, mas as imagens desapareciam rapidamente. Ele conseguiu imagens que demoraram a desaparecer em 1824 e o primeiro exemplo de uma imagem permandente ainda existente foi tirada em 1826. Ele chamava o processo de heliografia e demorava oito horas para gravar uma imagem.Wikipedia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Nicéphore_Niépce>. Acesso em: outubro  de 2008.
[3] Apesar desta imagem não conter meios tons e não servir para a litografia, todos os historiadores nesta área a consideram como a primeira fotografia permanente no Mundo. Este processo, atrás descrito, ficou conhecido como Heliografia - gravura com luz solar, tendo o inconveniente da baixa velocidade de captação e pouca qualidade de imagem.In:  A Primeira FOtorafia - A Heliografia de Niépce.  Disponível em: <http://camerafotografica.blogspot.com/2007/02/primeira-fotografia-heliografia-de_18.html>. Acesso em: julho de 2008.
[4] O francês Louis Daguerre foi quem primeiro produziu uma imagem fixa pela ação direta da luz. Em 1835, em seu laboratório, Daguerre estava manipulando uma chapa revestida com prata e sensibilizada com iodeto de prata que não apresentava nenhum vestígio de imagem. No dia seguinte, a chapa, misteriosamente, revelava formas difusas. Ele concluiu que o vapor de mercúrio proveniente de um termômetro quebrado teria sido o misterioso agente revelador. Daguerre aprimorou o processo passando a utilizar chapas de cobre sensibilizadas com prata e tratadas com vapores de iodo. O revelador era o mesmo mercúrio aquecido; e o fixador, uma solução de cloreto de sódio. O processo de Daguerre foi apresentado em 19 de agosto de 1839 perante uma sessão da Academia Francesa de Ciência e Belas-Artes pelo astrônomo e deputado François Aragó (1786-1853).  Ao tornar o invento domínio público, o governo francês concedeu uma pensão de 6 mil francos a Daguerre.
[5]HARRELL,Thomaz. A Imagem Virtual. História do Cinema. Disponível em:                                                   < http://www.tharrell.prof.ufu.br/>. Acesso em: ago. 2008. p. 5.
[6] William Henry Fox-Talbot  foi um escritor e cientista inglês, pioneiro da fotografia. Usava a câmera escura para desenhos em suas viagens. Talbot era um homem bem mais discreto e recolhido que Daguerre. Ele vinha pesquisando a fixação da imagem da câmera escura há tempos. Extremamente erudito, com múltiplos interesses investigativos, seus conhecimento se estendiam da matemática, área em que era especialista, às línguas orientais, passando pela física e pela química. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Henry_Fox_Talbot>. Acesso em outubro de 2008.
[7]Ibid., p. 6.
[8]Ibid., p. 9.
[9]Le moniteur de la Photographie. Paris, 16 de abril de 1879, apud MANNONI, Laurent. A grande arte da luz e da sombra: arqueologia do cinema. São Paulo: Editora SENAC; São Paulo: Unesp, 2003, p. 310.
[10]SOUZA, Hélio Augusto Godoy. Marey e a visibilidade do invisível. Disponível em:                                               < http://hgodoy.sites.uol.com.br/Artigos/marey.pdf>. Acesso em:  26 ago. 2008.
[11]Tornando-a consequentemente metafórica e, portanto, artística.
[12]SOUZA, Hélio Augusto Godoy, op. cit. Não paginado.
[13]BARTHES, Roland. A câmara Clara: nota sobre Fotografia.  Trad. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 18.
[14]Para ser realizada, a primeira fotografia, em 1827, pelo francês Josepg-Nicphore Niepce, teve que permanecer em exposição durante oito horas. A foto foi produzida de sua janela e mostrava a vista do quintal de sua casa. Como o material fotográfico é sensível à luz, entre a manhã e a tarde, o sol se deslocou, e aparecem no resultado final dois focos intensos de luz, como se existissem dois sóis. BERINO, Aristóteles de Paula; VICTORIO, Filho. Escrever com luz. Rio de Janeiro. Jornal Educação & Imagem, v. 2, 2007, p. 1.  
[15]BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: editora Brasiliense, v. II, p. 95, 1993. (Obras Escolhidas).
[16]DOBRANSZKY, Abreu Diana. A Fotografia entre a arte e a máquina. Revista Studium, Unicamp, v. 21, 2005.

A luz da Mimesis: uma breve história




Uma sala às escuras, um público que olha a tela branca e espera o surgimento de uma imagem luminosa e animada – se imaginarmos estar em algum lugar entre os séculos XII e XVII, que visão correta. [1]

Conta a lenda que o imperador Wu Ti, da dinastia Han, triste pela morte de sua bailarina predileta, ordenou ao mago da corte que a trouxesse de volta do Reino das Sombras. Caso desobedecesse, a punição era a morte. Utilizando uma pele de peixe macia, o mago, com criatividade, modelou a figura de uma bailarina. "Estendeu uma cortina branca armada contra a luz do sol, alcançando uma boa projeção de silhuetas. Estava feito, no ano 121, um Teatro de Sombras.[2]
Essa pequena narrativa sobre o  teatro de sombras[3] ilustra a sedução que as imagens em movimento despertam no imaginário humano em todas as épocas.
A projeção dos raios luminosos começou a ser estudada  quando "Aristóteles observou a passagem de um feixe de luz através de uma abertura qualquer."[4] Desde o olhar aristotélico, séculos se passaram antes que o homem pudesse aplicar e reproduzir esse fenômeno observado.

Aristóteles (384-322 a.C) observou a imagem do sol projetada no solo em forma de meia-lua ao passar seus raios por um pequeno orifício entre as folhas de um plátano[5] e concluiu que, quanto menor fosse o orifício, mais nítida era a imagem. Surgiu assim a primeira descrição da câmara obscura.[6]

Após mais de mil anos, um sábio árabe conseguiu tornar realidade o que Aristóteles havia percebido. "O princípio da câmara escura."[7]  

Uma das comprovações mais antigas que temos da sua utilização prática, segundo o historiador alemão Klaus Opten Hoefel, é da observação de um eclipse solar pelo sábio árabe Ibn Al Haitam, na corte de Constantinopla no ano 1038.[8]

Como o Sol observado diretamente poder ser prejudicial à visão, a câmara escura se tornou o método perfeito para o estudo solar. Vítima desse efeito, o cientista Guillaume de Saint-Cloud observou um eclipse no dia 5 de junho de 1285 e teve a visão prejudicada por vários dias. Após esse acidente, passou a estudar o fenômeno apenas com o uso da câmara escura. Segue uma curiosa passagem na qual descreve a técnica.

Faça uma abertura no telhado ou na janela de uma casa fechada, direcionada para a parte do céu onde aparecerá o eclipse, aproximadamente do tamanho do orifício que se faz em um tonel para se extrair o vinho. Quando a luz do sol entrar por esta abertura, coloque a uma distância de 20 ou 30 pés do orifício alguma coisa plana, por exemplo uma tábua, e verá que os raios de luz formam uma imagem circular sobre a tábua, mesmo se a abertura for angular.[9]

A câmara escura não servia à ciência somente no campo da astronomia. O cientista e artista Leonardo da Vinci[10] (1452 - 1519) a utilizou para medir a distância entre o Sol e o nosso planeta. "Da Vinci não abandonou o velho método empregado por Bacon de estudar o Sol sem queimar os olhos; ele contava utilizar os raios que penetravam pela abertura da câmara escura para calcular a distância exata entre o Sol e a Terra."[11]
Outro italiano, chamado Gerolamo Cardano (1501-1576), procurando melhorar a qualidade da imagem refletida, aperfeiçoou o sistema. Adicionou uma lente biconvexa na abertura por onde a luz entrava. Ele imitou, com a experiência, o que Platão descreveu no texto mito da caverna.[12]

Se lhe agrada ver o que se passa na rua quando o sol brilha, coloque um disco de vidro na janela e, estando a janela fechada, verá imagens projetadas através da abertura na parede oposta; mas as cores serão suaves. Coloque então um papel muito branco no lugar onde as imagens incidem.[13]

O físico Giovanni Battista della Porta (1540 - 1615) exibiu diversas paisagens usando lentes sofisticadas, mas foi além do uso normal da câmara escura. Com a técnica de pintura em vidro, incluiu nas projeções um cenário elaborado. Depois acrescentou atores e música. Realizava o roteiro de cada apresentação, criando um espetáculo multimídia, uma celebração das artes para comemorar a captura do movimento pelo homem. A facilidade de trânsito entre a arte e a ciência foi essencial para o aperfeiçoamento da técnica da projeção.

Graças a ele, a câmara escura, subitamente desviada de sua vocação científica, torna-se um "teatro ótico", um método de iluminação capaz de projetar histórias, cenários fictícios, visões fantasmagóricas. Deixou os domínios da ciência e da astronomia para mergulhar nos do artifício, da representação, do maravilhoso, da ilusão. [14]

Della Porta inventou o Teatro Ótico,[15] desviando o uso prático e científico no qual a câmera era utilizada. A projeção se transformou em espetáculos dinâmicos, encantando o público que se reunia no interior da caixa escura. Do lado de fora, atores reproduziam os movimentos projetados. Os músicos tocavam acompanhando as imagens. Os atores recitavam o texto. O teatro ótico, portanto, reunia a técnica da projeção ao teatro, literatura, música, dança e pintura.

As imagens de Della Porta, corretamente projetadas graças às lentes de cristal e ao espelho, que  ele conhece desde  1558,  apresentavam atores  de verdade,  com  cenário e músicas de acompanhamento.[16]

Della Porta aliou os princípios da câmera escura a jogos de espelhos para a criação de monstros, em um espetáculo aterrorizante, desviando a imagem de seu sentido denotativo. 

Seu objetivo era atemorizar os que o visitavam, através de espelhos deformantes ou pintados, ou surpreendê-los com projeções inesperadas.(...) o trabalho de Della Porta descrevia espelhos que alongavam ou encurtavam os rostos, tornavam os homens mais velhos ou mais jovens, deformavam-nos e desfiguravam-nos, ou acrescentava-lhes cabeças de asno, bicos de grou, focinhos de porco. Os métodos para tais efeitos foram detalhados na Magiae naturalis.[17]

As figuras iniciavam sua evolução em direção ao estado mimético perfeito do movimento. O jesuíta francês Jean Leurechon (1591- 1670) considerava a câmara escura uma das mais belas realizações da ótica pela experiência proporcionada, sobretudo pelo ato de mover-se.

Há sobretudo o prazer de ver o movimento dos pássaros, dos homens ou de outros animais, e a agitação das plantas sopradas pelo vento [...] Essa bela pintura, além de se apresentar em perspectiva, representa ingenuamente bem o que pintor algum jamais conseguiu imprimir em sua tela, a saber, o movimento contínuo de um lugar a outro.[18]

A arte da projeção conferiu novo ânimo a uma série de retratistas, pintores e desenhistas, que forneciam sua técnica como reprodutores de imagens. Diversos assuntos eram ilustrados sobre a superfície do vidro. Athanasius Kircher[19] (1501-1576), em seu livro A grande arte da luz e da sombra, editado em 1646, detalha a relação entre o pintor e a câmara escura portátil.

Kircher descreveu uma grande câmara escura destinada aos pintores de paisagem e a ser colocada a céu aberto. Dentro dela, estendeu uma parede de papiro. O pintor tinha apenas de entrar na câmara para desenhar no papel as paisagens externas.[20]

A pequena câmara escura portátil permitia aos pintores o aperfeiçoamento de suas habilidades. Ao mesmo tempo em que reduzia o prazo levado para a produção de cada paisagem, diminuía o tempo necessário para a formação de mão de obra. O lucrativo espetáculo de projeções que despertou o interesse do público de imediato necessitava de novos profissionais para suprimir as encomenda de novas apresentações.
No diálogo entre técnica, ciência e artes que a mimesis da luz operava. Por causa da dependência do sol como fonte de iluminação, os espetáculos eram realizados pela manhã ou à tarde. Kircher foi o primeiro a pensar em uma "luz artificial".  Sua técnica  consistia em acender  uma vela no interior de um pequeno tonel de vinho. Com ajuda de espelhos, a luz era refletida e concentrada por uma lente biconvexa, conseguindo bons resultados. Era o princípio da Lanterna Mágica descrito em detalhes.

Era uma grande caixa de madeira, (podendo com certeza abrigar um homem de pé), munida de uma chaminé "por onde a fumaça da lâmpada poderá escoar". A lâmpada, colocada sobre um suporte ou suspensa por fios de ferro no centro da caixa, ficava alinhada com uma abertura feita na parede da caixa, e um longo tubo estendia-se dessa abertura. "Um vidro lenticular da melhor espécie" era fixado na extremidade do tubo que ficava dentro da caixa, sobre uma espécie de passa-vistas, "coloca-se uma lâmina de vidro bem transparente, sobre o qual se pinta tudo o que de bom lhes parecer.[21]

A necessidade da luz do sol para a realização da projeção já não era imprescindível. Aos poucos o tamanho da lanterna mágica foi diminuindo e foram implementados aparatos mecânicos para realizar o movimento na imagem.  Com uma sequência de desenhos, era possível visualizar a representação de um trote de cavalo, ilustrado por pintores.




A imagem é "fixa" ou "animada", pois a placa comporta um sistema mecânico que permite dar movimento ao assunto representado. Basta introduzir a placa de ponta cabeça no passa-vistas e, na frente do foco luminoso de uma vela ou de uma lâmpada a petróleo, [...] para que as imagens multicoloridas brilhem sobre a parede branca.[22]

Caminhando entre a dualidade do processo científico e da arte, a câmara escura e a Lanterna Mágica se tornaram mecanismos fundamentais para a prática pedagógica que utilizava a imagem como prática de ensino.

Alguns anos após a invenção da lanterna mágica, que Kircher descreve na obra Ars Magna Lucis et Umbrae, "o dinamarquês Walgenstein substituiu, em 1660, o processo de iluminação por luz artificial. Apesar de ter constituído inicialmente uma forma de diversão, foi desde muito cedo utilizada como recurso pedagógico.[23]

A projeção era também utilizada pela ciência, principalmente nas abordagens de temas complexos pesquisados pelos cientistas. A novidade da projeção de imagens atraía muitos curiosos, que apareciam nas palestras científicas, em jornais visuais e em toda sorte de eventos. Pelo fato de atrair público e tornar compreensíveis assuntos complexos, a projeção foi pedagogicamente difundida pelo uso, contribuindo com a disseminação da própria ciência.

Em 1852 já acalentava a idéia de usar as projeções para popularizar as ciências (idéia muito antiga...). Só a lanterna mágica seria capaz de atrair o público e prender-lhe a atenção; as mais difíceis explicações se tornariam compreensíveis quando ilustradas com imagens luminosas.[24]

Similares a esses dois instrumentos, muitos outros surgiram na mesma época. Cito as caixas ópticas, fantascópio, panorama, diorama, traumatrópio, anortoscópio, fenaquitiscópio. Com os aparatos técnicos, era possível capturar o movimento e projetá-lo, faltando apenas fixar as imagens produzidas pelos equipamentos óticos em papel. O objetivo era ultrapassar a perfeição mimética dos pintores e desenhistas na técnica de copiar a realidade. Surgia então a fotografia.




[1]MANNONI, Laurent. A grande arte da luz e da sombra: arqueologia do cinema. São Paulo: Editora SENAC; São Paulo: Unesp, 2003, p. 31.
[2]O TEATRO de Sombras. Disponível em:  <http://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_de_sombras> Acesso em: 25 ago. 2008.
[3]Teatro de Sombras surgiu na China, por volta de 5.000 a.C e consiste em uma projeção, sobre paredes ou telas de linho, de figuras humanas, animais ou objetos. O espetáculo costuma atrair multidões graças ao seu peculiar encanto artístico. Disponível em: <http://inusitatus.blogtv.uol.com.br/2007/05/21/o-incrivel-teatro-de-sombras> Acesso em: 25 ago. 2008.
[4]MANNONI, Laurent. A grande arte da luz e da sombra: arqueologia do cinema. São Paulo: Editora SENAC; São Paulo: Unesp, 2003, p. 32.
[5]Plátano - Os plátanos são árvores do gênero Platanus, da família Platanaceae, as quais são nativas da Eurásia e América do Norte. Fonte: Wikipedia. Disponível em:<http://pt.wikipedia.org/wiki/Plátano>. Acesso em: mar. 2009.
[6]PINTO, Cláudia Alves do Amaral. A Fotografia - História e origem. Disponível em: <http://www.espigueiro.pt/reportagem/428fca9bc1921c25c5121f9da7815cde.html>. Acesso em: 25 ago. 2008.
[7]O princípio da câmara escura é simples: se fizermos um pequeno orifício na parede ou  na janela de uma sala mergulhada na escuridão, a paisagem ou qualquer objeto exterior serão projetados no interior da sala, na parede oposta ao orifício. Se a tela for feita  com um pedaço de papel ou um pano branco, a imagem fica ainda melhor. Se a tela estiver perto da abertura, a imagem fica pequena, porém nítida; se estiver distante, ela aumenta, mas perde em definição e colorido. MANNONI, Laurent. A grande arte da luz e da sombra: arqueologia do cinema. São Paulo: Editora SENAC; São Paulo: Unesp, 2003,  p. 32.
[8]HARRELL, Thomaz. A Imagem Virtual. História do Cinema. p. 2. Disponível em:                                                    < http://www.tharrell.prof.ufu.br/> Acesso em: ago. 2008.
[9]MANNONI, Laurent, op. cit.,  p. 33.
[10] DA VINCI, Leonardo é considerado como um arquétipo do Homem da Renascença. Pouco se sabe sobre a sua vida pessoal e ele mesmo parece ter sido extremamente reservado no que respeita às suas relações mais intímas. No entanto, tem sido investido bastante esforço de pesquisa e especulação sobre este aspecto da sua vida, tanto pelo fascínio que o seu génio artístico e científico exerce, como pelo seu aparente magnetismo pessoal. Wikipedia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vida_pessoal_de_Leonardo_da_Vinci>. Acesso em: fevereiro de 2008.
[11]Ibid., p. 34.
[12]PLATÃO. O mito da caverna. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mito_da_caverna> Acesso em: mar. 2009.
[13]MANNONI, Laurent, op. cit.,  p. 33.
[14]MANNONI, op. cit.,  p. 35.
[15]Giambatista Porta, que teve sua “magiae naturalis sine de miraculis rerum naturalium” publicada em 1589, afirmava que o reino da mágica natural incluía não só os poderes mágicos das imagens, pedras, plantas e influências celestiais, mas também experimentos químicos e óticos. Porta apresentava então um teatro ótico usando uma câmara escura para criar um entretenimento visual variado e móvel. HERTHEL, Nanda. História do cinema: o início. Disponível em: <http://www.artigos.etc.br/historia-do-cinema-o-inicio.html>. Acesso em:  ago. de 2009.
[16]Ibid., p. 37.
[17]Ibid., p. 45.
[18]Ibid., p. 39.
[19]Athanasius Kircher (1601-1680), jesuíta de origem alemã, foi ordenado sacerdote em 1628 e fixou-se em Roma em 1635. Além da lanterna mágica, inventada em 1650, Kircher é considerado o pai da história da música e inventor de duas máquinas, uma para escrever e a outra para compor música. In: OLIVEIRA, Henrique J. C. Os meios audiovisuais na escola portuguesa. Braga: Universidade do Minho, 1996, p. 49-52.
[20]CHÉRUBIN d´Orleans. La dioptrique oculaire. Paris: T. Jolly & S. Bernard, 1671, p. 285-288, apud MANNONI, op. cit.
[21]MANNONI, op. cit.,  p. 79.
[22]Ibid., p. 58.
[23]OLIVEIRA, Henrique J. C., op. cit., p. 49-52.
[24]MANNONI, op. cit., p. 271.